domingo, 1 de março de 2015

31 anos - dia 03

Para o terceiro dia, resolvi reviver meu último dia no Brasil, antes de embarcarmos para a tão temida Rússia. 
Alguns meses antes, Papai chegou com essa novidade. Para mim era uma mega novidade, porque sinceramente em minhas aulas de Estudos Sociais, ainda não tínhamos chegado na fase de estudar o mapa múndi. Quando contei a novidade para meu professor, ele meu vizinho na época, virou e me disse que lá era tão frio que não sobreviveríamos, o que gerou em mim um pavor monstro. Mas isso não tirou de mim o ar de superioridade, pois sim, quando criança eu era zero humildade. E os preparativos corriam solto enquanto eu tentava passar de ano em outubro. Ao mesmo tempo eu fazia catequese e tive que fazer a 1ª Comunhão sozinha, mais de um mês antes da turma. Isso aconteceu em 15 de outubro de 1995.
A viagem foi marcada para o dia 29 de outubro, um domingo frio e cheio de expectativa. 
No dia 28 aconteceu uma festa de despedida na casa de uns amigos dos meus pais que terminou às 05 da manhã. Chovia, mas a animação era imensa, ao mesmo tempo que lá em casa o clima era quase de enterro. 
Lembro de chegar e capotar e às 09 mamãe me acordar pois minha professora de catequese queria se despedir de mim. Ela me ligou antes e choramos muito ao telefone. Até que ela apareceu lá em casa e me deu uma caneta, que eu usei até estourar a tinta dentro da mochila quase um ano depois.
Da hora que acordei até a reunião de despedida na sala da casa do Guará, lembro que estávamos muito silenciosos e chorosos. A família inteira rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria com o coração cheio de tristeza e esperança. 
E todos fomos ao Aeroporto nesse mesmo silêncio. Amigos também foram, ganhei presentinho do meu irmão, que guardei durante muitos anos. Compramos revistas. 
Mas a hora de embarcamos foi um dos momentos mais tristes que já vivi em minha vida. A dor da partida cortava nossa alma e depois de todos os abraços e desejos de boa sorte, na virada do corredor de acesso à sala de embarque, escutávamos Sobrinha Ratattoulie gritando: "volta Mainha, volta". Mainha é a forma carinhosa com que ela chama minha Mamãe até hoje. E até hoje eu escuto nitidamente a voz de desespero dela nos vendo ir embora e claro, na cabeça dela de 3 anos, para nunca mais voltar. 
No avião, Mamãe e eu só chorávamos. Papai não chorava, mas tinha os olhos marejados. Um silêncio profundo tomou conta de nossas almas até nossa chegada ao Rio, de onde pegaríamos um voo para Frankfurt e daí para Moscou.
Meu último dia no Brasil, há quase 20 anos é exatamente esse como descrevo aqui. Um dia onde eu com então 11 anos, era uma pessoa muito envolvida com os meus próprios problemas de criança, onde eu acreditava que amanhã seria um dia melhor, mesmo que esse dia fosse longe dos meus amados familiares. Na minha cabeça já um pouco adulta, era preciso. Era preciso ter força. Eu precisava a partir dali ser forte pela minha mãe. Quando viajamos para a Rússia, iriamos inicialmente ficar por um ano, mas sempre soube internamente que seria o contrário, que teríamos que ficar muito tempo e foi o que aconteceu. A notícia de que ficaríamos 4 anos não me chocou. Eu precisava sempre ser forte. E apesar dos pesares, acho que fui. 




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